Crônica

O rei está nu e a estátua da Justiça está pelada

Uma sátira sobre poder, privilégios e confiança pública que usa a clássica fábula do rei nu para refletir sobre o Brasil atual

O rei está nu e a estátua da Justiça está pelada
O brasileiro está vendo | Reprodução/Read News/IA
Evaldo Gomes
Publicado em 21/06/2026 às 15:13

Há uma antiga fábula de Hans Christian Andersen que atravessou séculos sem perder a atualidade. Nela, um rei vaidoso é enganado por falsos tecelões que prometem confeccionar uma roupa invisível aos incompetentes e indignos. Ninguém ousa admitir que não vê o traje. Ministros, nobres e cortesãos preferem fingir. Até que uma criança rompe o pacto do silêncio e grita a verdade: “O rei está nu”.

O Brasil contemporâneo parece viver sua própria versão dessa história.

Durante anos, parte da classe política, setores das instituições e até parcelas da sociedade acostumaram-se a aceitar como naturais comportamentos que, em qualquer democracia madura, seriam motivo de intenso questionamento. Parlamentares envolvidos em escândalos permanecem discursando sobre moralidade. Autoridades que deveriam ser fiscalizadas transformam-se, muitas vezes, em fiscais de si mesmas. E ministros que ocupam posições de enorme relevância institucional passam a ser tratados por admiradores e aliados como figuras acima do escrutínio público. Não é o caso de desconhecer a importância das instituições. Pelo contrário. A saúde da democracia é indissociável da força de suas instituições. Mas instituições fortes não são aquelas que não podem ser questionadas; são aquelas capazes de suportar questionamentos sem se sentirem ameaçadas. Talvez o fenômeno mais preocupante seja justamente a criação de uma espécie de monarquia simbólica em plena República. Os reis modernos não usam coroas nem cetros. Vestem ternos, ocupam gabinetes climatizados e concedem entrevistas. Seu poder não decorre do sangue azul, mas da interpretação de que determinadas autoridades estariam acima do debate público.

A monarquia simbólica da República

Nesse cenário, a famosa frase da fábula ganha uma atualização brasileira: O rei está nu e a estátua da Justiça está pelada. A imagem é forte porque a estátua da Justiça sempre representou imparcialidade, equilíbrio e prudência. Seus olhos vendados simbolizam a neutralidade diante dos interesses particulares. Sua balança representa o peso igual da lei para todos. Mas o que acontece quando a população passa a enxergar fissuras nessa imagem?

"Uma estátua da Justiça" (Raprodução/Read News/IA) 

A sensação que cresce em parte da sociedade é a de que a venda já não cobre totalmente os olhos. A balança parece oscilar conforme o personagem julgado. A espada, por vezes, parece mais rápida para uns do que para outros. Naturalmente, percepções não são provas. Críticas não equivalem a condenações. Contudo, numa democracia, a confiança pública é um patrimônio tão importante quanto a própria legalidade dos atos. Quando milhões de cidadãos começam a desconfiar da neutralidade das instituições, o problema deixa de ser apenas jurídico e torna-se político, social e moral.

Quando a confiança pública se desgasta

A sátira surge justamente desse contraste. Enquanto cidadãos vivem sob o domínio de facções criminosas, enfrentam filas, impostos e dificuldades cotidianas, parte da elite política e institucional parece habitar um universo paralelo, cercado de privilégios e protegido por uma narrativa de infalibilidade.

Na fábula, o rei continuou desfilando mesmo depois de ouvir a verdade. Seu orgulho era maior que sua capacidade de admitir o erro. O risco para qualquer instituição é semelhante. Quando críticas legítimas passam a ser tratadas automaticamente como ataques, e quando questionamentos são confundidos com heresia, o poder deixa de ouvir a sociedade e começa a ouvir apenas o próprio eco. Talvez estejamos vivendo o momento da criança da história. Não uma criança específica, mas milhões de vozes espalhadas pelas ruas, pelas redes sociais e pelos debates públicos. Vozes que, concorde-se ou não com elas, repetem uma pergunta simples: Quem fiscaliza os fiscalizadores?

Enquanto essa resposta não vier de forma clara, transparente e convincente, continuará ecoando sobre a Praça dos Três Poderes uma versão brasileira da velha fábula: A estátua da Justiça está pelada.

Jornalista Evaldo Gomes.