Corrupção

O raio-x do escândalo suprapartidário que balançou os Três Poderes

O escândalo de um "banco poderoso" que capturou o Estado, atingiu o Supremo Tribunal Federal, governos de Lula e Bolsonaro em um esquema de fraude e influência

O raio-x do escândalo suprapartidário que balançou os Três Poderes
Estrutura abalada | Reprodução/Read News/IA
Evaldo Gomes
Publicado em 06/03/2026 às 7:32

O cenário político e financeiro do Brasil enfrenta um de seus momentos mais críticos com o avanço da Operação Compliance Zero. O que começou como uma investigação sobre títulos podres revelou uma estrutura de “captura do Estado”, onde o Banco Master transitou com desenvoltura entre governos de esquerda, de direita e as mais altas cortes do Judiciário.

O núcleo do problema

O fato que desencadeou a crise foi a liquidação extrajudicial do banco pelo Banco Central e a subsequente prisão do seu controlador, Daniel Vorcaro. A Polícia Federal (PF) sustenta que a instituição operava um esquema dividido em quatro núcleos criminosos:

  • Financeiro: Criação de ativos fictícios e fraudes contábeis.
  • Corrupção Institucional: Cooptação de agentes públicos para facilitar operações.
  • Lavagem de Dinheiro: Ocultação de recursos ilícitos e transações obscuras.
  • Núcleo de Intimidação (“Milícia Privada”): Uso de ex-policiais para monitoramento e ameaças a jornalistas e autoridades que tentavam investigar o banco.

A esquerda e o governo Lula

O envolvimento do campo progressista é marcado pela contratação de figuras de alto escalão para consultoria e interlocução política.

  • Guido Mantega: Ex-ministro da Fazenda e figura central nas gestões petistas, atuou como consultor estratégico da instituição.
  • Ricardo Lewandowski: Antes de assumir o Ministério da Justiça no governo Lula, o ex-ministro do STF prestou serviços jurídicos e estratégicos ao banco.
  • Interlocução: Mensagens interceptadas sugerem diálogos de figuras como o senador Jaques Wagner (líder do governo no Senado) sobre interesses do grupo financeiro.

A direita e o governo Bolsonaro

A ascensão meteórica do Master ocorreu durante o governo anterior, sob o olhar da fiscalização do Banco Central.

  • Roberto Campos Neto: É alvo de críticas e investigações sobre uma suposta omissão deliberada do Banco Central no período em que o banco expandia sua base de ativos duvidosos.
  • Ibaneis Rocha (MDB-DF): O governador de Brasília é citado em tratativas que visavam integrar o Banco de Brasília (BRB) aos negócios do Master.
  • O Lobby do Centrão: O banco mantinha forte influência em partidos de centro-direita e do bloco do Centrão para garantir trânsito livre no Congresso Nacional e aprovação de títulos de crédito.

O terremoto no judiciário e o crepúsculo da confiança no STF

Talvez o ponto mais sensível do imbróglio seja o envolvimento indireto e direto de ministros das cortes superiores. O envolvimento do Banco Master com membros da cúpula do Judiciário e seus familiares não é apenas um escândalo financeiro, mas um golpe severo na imagem e autoridade moral do Supremo Tribunal Federal (STF).

Imagem: Erosão do judiciário (Reprodução/Read News/IA)
  • A saída de Toffoli: O ministro Dias Toffoli deixou a relatoria do caso no STF após menções ao seu nome ligadas a investimentos do banco em resorts.
  • Contratos Milionários: A PF investiga o pagamento de R$ 129 milhões ao escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, levantando questões sobre conflito de interesses.
  • A Relatoria de Mendonça: Atualmente, o ministro André Mendonça conduz as prisões, expondo mensagens que provam que o banco monitorava ilegalmente jornalistas da grande imprensa.

Essa proximidade cria uma percepção de “Justiça de Compadres” e fragiliza a credibilidade do Judiciário. Quando a sociedade percebe que o poder econômico consegue contratar o prestígio de quem deveria fiscalizá-lo, a confiança no sistema democrático e a previsibilidade jurídica são corroídas, afastando investimentos e alimentando o discurso de que as instituições brasileiras estão capturadas por interesses privados, independentemente de quem ocupe o Palácio do Planalto.

Um escândalo suprapartidário

As provas oficiais indicam que o Banco Master não tinha ideologia. A estratégia era a onipresença: contratar o prestígio da esquerda para abrir portas, o lobby da direita para manter o poder e a proteção do Judiciário para garantir a impunidade. O desfecho da Operação Compliance Zero promete ser o maior teste para a independência das instituições brasileiras em 2026.

Responsabilidade e fatos

É fundamental pontuar que, embora os nomes dos presidentes Lula e Jair Bolsonaro surjam no contexto das investigações, seja por atos de seus ministros, indicações ao Banco Central ou o uso de figuras de proa de seus governos pelo Banco Master, as investigações da Polícia Federal não indicam, até o momento, uma participação direta ou autoria pessoal de ambos nos crimes financeiros ou na estrutura de intimidação da instituição. O foco das autoridades concentra-se na rede de influência e nos agentes públicos e privados que operavam as engrenagens do banco nas sombras do poder.