REFORMA TRIBUTÁRIA

Fim do “capital de giro informal”: como o split payment vai transformar o caixa das empresas a partir de 2027

Split payment muda a cobrança de tributos em 2027, reduz o caixa disponível das empresas e preserva regras especiais para MEI e Simples Nacional

Fim do “capital de giro informal”: como o split payment vai transformar o caixa das empresas a partir de 2027
Imagem ilustrativa | Empresários/IA
Evaldo Gomes
Publicado em 15/07/2026 às 20:33

A peça mais aguardada e uma das mais complexas da Reforma Tributária brasileira já tem data para entrar em operação. A partir de 1º de janeiro de 2027, começa a implementação do split payment (pagamento dividido), sistema que promete mudar profundamente a forma como os tributos sobre o consumo serão recolhidos no país. A nova tecnologia permitirá que os impostos incidentes sobre uma venda sejam separados automaticamente no momento do pagamento. Na prática, a parcela destinada ao Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e à Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) seguirá diretamente para os cofres públicos, enquanto o vendedor receberá apenas o valor líquido da operação. Apresentado como um dos pilares da modernização tributária, o mecanismo busca reduzir a sonegação, aumentar a eficiência da arrecadação e simplificar processos. Ao mesmo tempo, exigirá uma profunda adaptação financeira das empresas.

O caixa das empresas muda de lógica

O impacto mais imediato do split payment não será apenas tecnológico, mas financeiro. Durante décadas, muitas empresas utilizaram o intervalo entre o recebimento das vendas e o vencimento dos tributos como uma fonte temporária de recursos. Esse período, conhecido no mercado financeiro como float tributário, funcionava, na prática, como um capital de giro sem custo imediato, utilizado para honrar despesas como folha de pagamento, fornecedores e outras obrigações de curto prazo. Com a retenção automática dos impostos no momento da liquidação da venda, seja por Pix, cartão, boleto ou transferência eletrônica, esse espaço financeiro deixa de existir. Na avaliação de especialistas, empresas que trabalham com margens reduzidas ou baixa reserva de caixa poderão enfrentar um período de adaptação mais sensível. O desafio passará a ser o planejamento financeiro: será necessário revisar projeções de fluxo de caixa, renegociar prazos com fornecedores e reforçar a gestão da liquidez para evitar a dependência de crédito bancário.

Imagem ilustrativa II (Reprodução:Readnews/IA)

Implantação gradual

Apesar de entrar em vigor em 2027, a implantação ocorrerá de forma progressiva. A Receita Federal definiu que a primeira etapa será opcional e concentrada nas operações entre empresas (B2B). A proposta é permitir que o mercado financeiro, as instituições de pagamento e os sistemas de gestão empresarial realizem os ajustes necessários antes da expansão do modelo. Nessa fase inicial, a adesão servirá como um ambiente de validação operacional e facilitará a apropriação automática dos créditos tributários previstos no novo modelo do Imposto sobre Valor Agregado (IVA). A expectativa é que os anos seguintes sejam dedicados à integração tecnológica entre bancos, adquirentes, plataformas de pagamento e sistemas de gestão (ERP), acompanhando a transição da Reforma Tributária até sua implementação completa em 2033.

MEI e Simples Nacional permanecem protegidos

Uma das principais preocupações levantadas durante a discussão da Reforma Tributária dizia respeito ao impacto sobre os pequenos negócios. Pelas regras aprovadas, o Microempreendedor Individual (MEI) continuará recolhendo seus tributos por meio do Documento de Arrecadação do Simples Nacional (DAS), mantendo o modelo de pagamento em valores fixos e sem submissão à alíquota padrão aplicada aos novos tributos. Também estão previstas regras específicas para empresas enquadradas no Simples Nacional, com mecanismos destinados a evitar retenções indevidas e preservar a dinâmica financeira dos pequenos empreendedores. A estratégia do governo é concentrar o funcionamento integral do split payment nas grandes cadeias econômicas, onde o volume de operações torna mais relevante o combate à evasão fiscal, reduzindo impactos burocráticos sobre os negócios de menor porte.

Uma mudança que vai além da tecnologia

O split payment representa mais do que uma inovação tecnológica. Ele altera uma prática financeira que, durante muitos anos, fez parte da rotina de empresas de diferentes portes. Ao eliminar o intervalo entre o recebimento da receita e o recolhimento dos tributos, o novo sistema tende a aumentar a previsibilidade da arrecadação pública, mas também exigirá um novo padrão de planejamento financeiro no setor privado. Para muitas empresas, a adaptação não dependerá apenas de novos sistemas ou softwares de gestão. Ela exigirá uma mudança de cultura, na qual fluxo de caixa, liquidez e controle financeiro passarão a ocupar um papel ainda mais estratégico na sustentabilidade dos negócios.