Editorial

Decisão de Fachin, em favor de Toffoli, reacende debate sobre confiança no STF

Suposta anulação de investigação contra Toffoli amplia debate sobre transparência, Justiça e a percepção do cidadão comum diante da insegurança

Decisão de Fachin, em favor de Toffoli, reacende debate sobre confiança no STF
Estátua da Justiça | Reprodução/Read News/IA
Evaldo Gomes
Publicado em 22/02/2026 às 20:23

Suposta decisão do ministro Luiz Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal, de anular e arquivar a investigação da Polícia Federal envolvendo o ministro Dias Toffoli, no caso ligado ao grupo Master, provocou reações que vão além do meio jurídico. Tecnicamente, o Supremo rejeitou a arguição de suspeição e declarou válidos os atos praticados pelo ministro Toffoli. A decisão foi colegiada e definitiva (não cabe recurso). Formalmente, trata-se de uma interpretação jurídica sobre competência e imparcialidade. Mas o impacto político e simbólico é outro. Num país em que a confiança nas instituições oscila ano após ano, decisões que envolvem integrantes do próprio tribunal costumam ser interpretadas por parte da população como sinal de autoproteção corporativa, mesmo que não haja ilegalidade comprovada.

O olhar do cidadão comum

Nesse contexto há um elemento que não pode ser ignorado: o contraste social. Enquanto tribunais discutem suspeição, nulidades e competência processual, milhões de brasileiros vivem sob a pressão direta da criminalidade. Em muitas periferias e comunidades dominadas por facções, o Estado é visto como ausente, insuficiente ou mesmo como negligente. A sensação de abandono convive com a certeza medo cotidiano. Nesse cenário, quando decisões judiciais anulam investigações envolvendo autoridades, parte da população faz uma leitura simples, ainda que juridicamente imprecisa: “Se os poderosos conseguem anular processos, como a Justiça funciona para quem está na base?” Essa percepção não nasce de um caso isolado. Ela é fruto de acúmulo histórico, desigualdade estrutural e comunicação institucional pouco didática.

O contraste das realidades (Imagem: reprodução/Read News/IA) 

Justiça técnica e a confiança social

O Supremo decide com base na Constituição e nas regras processuais. O cidadão comum, porém, julga com base na experiência concreta: violência na rua, lentidão do sistema, noticiário repleto denúncias de corrupção e impunidade percebida. É nesse abismo entre o jurídico e o social que mora o desafio. A questão que ecoa não é apenas se a decisão foi correta do ponto de vista legal. É se foi suficientemente respeitosa e transparente para fortalecer a confiança pública.

O desafio institucional

Num país profundamente polarizado, cada decisão do STF é também um ato político no sentido simbólico. Transparência, fundamentação clara e comunicação acessível tornam-se tão importantes quanto o próprio mérito jurídico. Sem isso, cresce o risco de consolidar a narrativa de distanciamento entre as instituições e o cidadão comum, especialmente aquele que convive diariamente com o medo e sonha apenas com o direito básico de andar tranquilo pelas ruas.