Editorial

Quando o silêncio das favelas grita

A omissão do Estado; a hipocrisia política e o preço que o povo paga nas periferias do Rio

Quando o silêncio das favelas grita
Imagem de Favela | Reprodução/Carlos Kenobi/Unsplash
Evaldo Gomes
Publicado em 29/10/2025 às 14:59

Se as ruas das favelas pudessem falar, suas vozes contariam histórias de medo, resistência e abandono. Revelariam que por trás das vielas e becos, há vidas presas entre o descaso e a violência, entre o silêncio e o barulho dos tiros que rompem as madrugadas. Mais uma vez, o Rio de Janeiro amanheceu sob o som das sirenes e o eco de uma operação policial.

Enquanto se busca um culpado, a política se apressa

Mais uma vez, a tragédia virou manchete. E, como tem sido rotina, a política se apressou em transformar a dor em discurso. Uns condenam a ação da polícia como se o crime fosse vencido com palavras; outros aplaudem o confronto sem enxergar o sangue inocente que mancha o chão. Enquanto isso, a favela chora. Mães enterram filhos, crianças aprendem a se proteger do medo, trabalhadores veem suas casas invadidas pela brutalidade de uma guerra que não lhes pertence. A vida comum, que tenta florescer nas margens, é esmagada pela omissão de um Estado que só aparece quando quer mostrar poder, nunca quando precisa oferecer amparo.

Foto de Rafaela Biazi na Unsplash

A espetacularização do discurso

Há uma hipocrisia cruel no debate que se instala depois de cada tragédia. Fala-se em direitos humanos apenas quando há câmeras ligadas. Defende-se o fim da violência, mas ignora-se que seu início se deve à falta de escolas e direitos constitucionais que deveriam garantir a dignidade de todos como: infraestrutura, recursos e os direitos básicos inerentes a todos os brasileiros. O discurso se torna espetáculo, enquanto o povo continua refém de um sistema que o esquece.

A favela quer o que merece

A favela não quer piedade. Quer respeito, quer presença, políticas públicas, dignidade. Quer ser lembrada quando não há manchetes, sem o derramamento de sangue. O silêncio das vielas não é evidência de paz. É o grito contido de um Brasil que aprendeu a conviver com o absurdo. E enquanto os governantes disputam narrativas, a comunidade segue contando seus mortos, e esperando, em vão, que alguém finalmente escute suas histórias e entenda o que ela merece.

Nota do ReadNews

O ReadNews acredita que o jornalismo deve dar voz a quem não é ouvido. Nosso compromisso é com a verdade, com o povo e com a reflexão social que desperta consciência.
Em tempos de discursos prontos e interesses eleitoreiros, reafirmamos nossa missão: contar histórias reais, denunciar omissões e humanizar as estatísticas.
Porque cada vida perdida nas favelas é uma parte do Brasil que silencia e nós, como imprensa, temos o dever de fazer esse silêncio ser ouvido
“.