Saúde

Maternidade Reborn: afeto, perda e o realismo.

Entre o simbólico e o terapêutico, a cultura das bonecas hiper-realistas revela dinâmicas emocionais profundas e levanta debates sobre os limites da saúde mental.

Maternidade Reborn: afeto, perda e o realismo.
Maíra Câmara
Publicado em 20/05/2025 às 19:27

Nos últimos anos, a popularização das bonecas hiper-realistas conhecidas como reborns tem chamado a atenção não apenas nas redes sociais, mas também nos campos da psicologia e da saúde mental. O que, à primeira vista, poderia ser interpretado como uma manifestação artística ou um hábito de colecionismo peculiar, revela-se, em muitos casos, como expressão de afetos profundos, vivências de luto não elaboradas e dinâmicas emocionais complexas.

 Neste mês, comemorado o dia das mães, as redes sociais abriu espaço para essa temática e muitas pessoas tem exposto suas realidades e subjetividades em relação ao consumo, importância e até o exagero desta prática; a tv aberta divulgou uma matéria que foi uma das portas de entrada dessa discussão na mídia; desde então, pessoas e seus comportamentos tem ganhado evidência, e outros fatores levantados como debate por trás desta prática.

Boneca Reborn, o que é?

As bonecas reborns são confeccionadas artesanalmente com impressionante nível de realismo: pele com textura semelhante à de um recém-nascido, veias aparentes, cabelos implantados fio a fio e peso compatível ao de um bebê verdadeiro. Esses detalhes fazem delas objetos de desejo não apenas para colecionadores, mas também para mulheres que buscam, por meio dessas figuras, uma vivência simbólica ou terapêutica da maternidade.

Bebê Reborn (Reprodução/Instagram/@bebereborncuritiba)

A maternidade Reborn

A chamada “maternidade reborn” refere-se ao cuidado e vínculo afetivo que algumas mulheres estabelecem com essas bonecas, tratando-as como filhos reais. Embora esse comportamento possa parecer, para muitos, inusitado ou até perturbador, ele necessita ser compreendido em sua profundidade psíquica. Frequentemente, essas mulheres enfrentaram perdas gestacionais, infertilidade, solidão ou envelhecimento, muitas vezes em contextos de frágil apoio social. Nesse cenário, a boneca atua como um objeto transicional, oferecendo espaço simbólico para a expressão de afetos reprimidos e elaboração de ausências.

Como as Reborns encarnam vínculos e ausências?

Algumas mulheres vão além do simples cuidado: compram roupas, preparam enxovais, simulam a alimentação e o sono, registram nomes e até solicitam certidões simbólicas. Tais práticas, por mais estranhas que pareçam, revelam a busca por sentido, pertencimento e reconhecimento emocional. No entanto, é necessário refletir sobre os limites desse fenômeno: até que ponto essas práticas representam um recurso terapêutico e, a partir de que momento, podem sinalizar uma disfunção emocional ou social?

Afetos em excesso: a Linha tênue entre consolo e fuga.

Psicologicamente, o apego às bonecas reborns pode ser interpretado como um mecanismo de enfrentamento diante de dores difíceis de serem elaboradas. Contudo, quando o apego ultrapassa a função simbólica e adquire contornos de realidade objetiva  como a reivindicação de direitos legais ou a institucionalização de datas comemorativas, é preciso discutir os riscos de se naturalizar comportamentos que, embora legítimos como expressão individual de sofrimento, não devem se tornar padrões sociais amplamente aceitos.

A escuta clínica deve acolher o sofrimento subjacente a esse vínculo, compreendendo-o como possível elaboração de traumas, lutos ou desejos frustrados. Ao mesmo tempo, cabe aos profissionais da saúde mental delimitar com clareza os limites entre o cuidado terapêutico e a patologização de condutas.

Racionalidade e empatia: o cuidado com a nova cultura.

A cultura da maternidade reborn não deve ser vista apenas como excentricidade estética ou social, mas como uma manifestação subjetiva de afeto e dor. Ao reconhecer esses movimentos singulares, ampliamos nossa sensibilidade diante do sofrimento humano, sem, no entanto, perder de vista os contornos do que é socialmente saudável, funcional e eticamente necessário, por isso, estarmos atentos é importante para não deixarmos essa onda se naturalizar, principalmente por esconder muitos aspectos emocionais. Se há dor, necessidades e faltas, é necessário o cuidado e não a normalização, e deve ser visto de forma individual e particular, para que não se torne um momento socialmente comprado e endeusado ao ponto de direitos de um objeto inanimado serem questionamos e debatidos como os de um ser vivo.

Foto destaque: Um bebê com a boca aberta (Reprodução/ Jessica Hearn/Unsplash)