Editorial

A decisão dos EUA e a triste realidade das periferias brasileiras, “reféns de terroristas”

Enquanto Brasília se perde em uma guerra de narrativas e planos eleitoreiros de última hora, as facções criminosas consolidam um Estado paralelo que escraviza e exclui o direito de ir e vir

A decisão dos EUA e a triste realidade das periferias brasileiras, “reféns de terroristas”
A verdade vivida nas favelas | Reprodução/readnews/IA
Evaldo Gomes
Publicado em 31/05/2026 às 11:35

A recente decisão dos Estados Unidos de classificar as maiores facções criminosas do Brasil como organizações terroristas internacionais jogou luz sobre uma ferida que a classe política nacional tenta maquiar há décadas. Enquanto o governo federal se apressa em lançar planos bilionários de segurança às vésperas do calendário eleitoral, a realidade na ponta expõe o colapso do poder público: o cidadão de bem perdeu a soberania de sua própria casa para um Estado paralelo que dita as regras, cobra impostos ilegais e lucra com o abandono social.

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Olhar para o atual cenário da segurança pública no Brasil sem o filtro da paixão partidária é um exercício de indignação necessária. O debate público foi sequestrado por uma polarização rasteira, um “Fla-Flu” estéril entre lulistas e bolsonaristas, que serve apenas como cortina de fumaça. Enquanto militâncias se acusam mutuamente nas redes sociais, o crime organizado avança de forma pragmática, silenciosa e empresarial pelos becos, vielas e estruturas financeiras do país.

A análise histórica é implacável. Ao somar as últimas décadas de gestão, a responsabilidade política pela consolidação das grandes facções não pode ser terceirizada. O alastramento do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) ocorreu sob os olhos de governantes que negligenciaram as fronteiras, permitiram que os presídios se tornassem escritórios do crime e falharam em sufocar a lavagem de dinheiro no andar de cima da economia. O resultado dessa inércia histórica é a entrega de territórios inteiros à tirania do fuzil.

Imagem: O medo em familia (Reprodução/readnews/IA)

Na periferia real, o “lugar de fala” não pertence ao trabalhador; pertence ao traficante ou ao miliciano. O cotidiano nas comunidades é marcado por um despotismo cruel onde o direito constitucional de ir e vir foi revogado. Moradores são obrigados a pagar pedágios ilegais por serviços básicos como água, gás e energia. Até mesmo o acesso à informação é controlado: postes são vandalizados e empresas de internet são expulsas para que o crime monopolize o sinal e mantenha a população sob absoluto isolamento e controle.

Imagem: O terror do isolamento (Reprodução/readnews/IA)

As decisões judiciais que restringiram operações policiais em comunidades, sob o pretexto de proteger vidas, muitas vezes funcionaram na prática como uma blindagem territorial. O crime aproveitou a calmaria institucional para se reorganizar, estocar armamento de guerra e transformar o tecido urbano em uma fortaleza intransponível. Hoje, qualquer tentativa de retomada pelo Estado não é mais uma ação de patrulhamento, mas uma incursão militar com alto custo de sangue de policiais e inocentes.

Portanto, o anúncio de planos de segurança de última hora, recheados de cifras bilionárias, soa mais como oportunismo eleitoreiro do que como estratégia de Estado. É a política do “depois da porta arrombada”. O Brasil não precisa de mais discursos teatrais ou de governantes que transitam blindados e encastelados enquanto o povo “perde os direitos constitucionais e figuram em estatísticas trágicas”. É preciso coragem para admitir o tamanho do abismo, romper a barreira da polarização que destrói o país e asfixiar o crime onde ele mais prospera: no bolso dos ‘barões’ que lavam o dinheiro do terror diário vivido pelas periferias.

Editor chefe jorn. Evaldo Gomes.