Saúde

Transtorno de Personalidade Borderline: é preciso compreensão e respeito para evitar a criação de conteúdos equivocados sobre o tema

Quando a arte se torna um desserviço para saúde mental; vídeo em que a cantora Maraisa aparece cantando "borderline" é visto com cautela por especialista em saúde mental

Maíra Câmara
Publicado em 27/04/2025 às 19:59

A recente repercussão de um vídeo nas redes sociais, no qual a cantora Maraisa interpreta a canção Borderline, reacendeu o debate sobre a forma como transtornos mentais são retratados na cultura popular. A utilização de termos depreciativos, como “maluco” e “personagem”, contribui para a estigmatização do Transtorno de Personalidade Borderline, reforçando concepções equivocadas e excludentes sobre essa condição.

O que é o Transtorno Borderline?

O Borderline é um transtorno psiquiátrico reconhecido, caracterizado por instabilidade afetiva, impulsividade, distúrbios na autoimagem, comportamentos autolesivos e sentimentos intensos de abandono. Estima-se que entre 2,5% e 6% da população seja afetada por esse quadro, que demanda avaliação clínica criteriosa e tratamento especializado. Reduzir o transtorno a uma caricatura negativa é não apenas impreciso, mas também socialmente irresponsável.

O impacto do preconceito e da representação negativa na música.

A representação distorcida de condições psicológicas na música, televisão e demais formas de arte tem implicações concretas. Quando a mídia associa o Transtorno Borderline a comportamentos abusivos ou perigosos, contribui para o reforço de estereótipos que afastam o debate público da realidade clínica e humana da condição. Pessoas diagnosticadas frequentemente enfrentam não apenas os desafios da própria patologia, mas também o peso da marginalização, o que agrava o sofrimento psíquico e dificulta o acesso a apoio e cuidados adequados.

Por que o estigma é tão prejudicial?

O estigma social vinculado aos transtornos mentais, especialmente ao Borderline, pode gerar consequências devastadoras: isolamento, vergonha, retraimento e, em casos extremos, o agravamento de condutas autodestrutivas. Como profissional da saúde mental testemunho diariamente o impacto desse preconceito, que desumaniza o indivíduo e ignora sua história de dor e luta. Importa ressaltar que muitos pacientes com o transtorno são, inclusive, vítimas de relacionamentos abusivos, em que sua vulnerabilidade emocional é explorada por pessoas manipuladoras, o que reforça a necessidade de acolhimento e não de julgamento.

A importância da empatia e do respeito.

É urgente promover uma cultura de empatia, informação e respeito. A sociedade precisa compreender que cada diagnóstico carrega vivências únicas e complexas. Utilizar transtornos mentais como metáfora para instabilidade ou agressividade, em expressões artísticas ou narrativas midiáticas, contribui para o silenciamento e para a exclusão de quem mais precisa de apoio.

A transformação desse cenário exige esforço coletivo: educação em saúde mental, responsabilidade na comunicação pública e escuta ativa dos profissionais e dos próprios pacientes. Somente assim será possível construir uma sociedade mais inclusiva, onde a diversidade psíquica seja reconhecida com dignidade e sensibilidade.

Por trás de cada diagnóstico, existe um ser humano. Promover o respeito às singularidades mentais é um passo essencial para garantir direitos, combater a desinformação e fortalecer redes de cuidado e solidariedade.

Video destaque: Musica nova Maraisa “Borderline” (Reprodução/You Tube/canal:@patroas35ofc)